segunda-feira, 23 de junho de 2014

Flores

se você vier
venha toda amores
se você vier
me extirpará as dores
se você vier
não se demore e, se novamente fores
derramarei-me em pranto eterno
e minhas lágrimas regarão as flores
que serão suas 
se você, novamente, vier...

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Passa



passa o tempo
a chuva passa
passa o ranço
o corpo, a carcaça
passa a vida
que, em chusmas, passa
passa o passo
que sempre passa
passa a música
que me abrasa
passa a dor
que me arrasa
passa o grito
executado em massa
passa o mito
que se extravasa
passa o toque
que se agrava
passa a lua
que se apaga
como o rastro do poema...
que passa... e passa

sexta-feira, 26 de março de 2010

Veredicto

a coragem tardia
à emoção fadada

a última larva
à voragem dada

a única palavra
à sensação vadia...:

daí ao nada
o que é do nada


Canoas-RS
24/10/09

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Onissapiência

eu conheço a hora
do teu sono
eu conheço a orgia
do teu sonho
eu conheço a eira
do teu giro
eu conheço a beira
do teu mundo

São Carlos-SP
10/03/2008

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Além

além do espaço
estreito e arredio
encontro o rechaço
de um corpo frio

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Janela do terceiro andar




debaixo da janela do terceiro andar
esbarram-se corpos soerguidos
esvaem-se projetos, ideais e emoções
debaixo da janela do terceiro andar

lá fora, longe da janela do terceiro andar
o formigueiro humano sonha
derramam-se lágrimas de sofrimento humano
lá, longe da janela do terceiro andar

ao alto, à janela do terceiro andar
há um olhar atento e atônito
observando os passos de todos que passam
à janela do terceiro andar

filosofando da janela do terceiro andar
deparo-me soerguido
atento a todos os movimentos humanos
da janela de minha alma

Canoas-RS

sábado, 5 de setembro de 2009

Canção do Exílio de um Uruaraense


(Uruará, 22 anos, 1987-2009)

que saudade da minha terra
onde ficaram os sabiás
que saudade do meu mundo
que eu não trouxe para cá

que saudade da infância
que deixei, da minha vida
que saudade do meu Norte
minha terra tão querida

que saudade do imenso verde
que tem nas terras de lá
que saudade das tantas matas
que aqui não se pode encontrar

que saudade, que saudade
do chão cheiroso do Pará
não permita, Deus, que eu morra
sem voltar pra Uruará


Canoas - RS, 05 de Setembro de 2009

Publicado no Livro Poemas Dedicados. Rio de Janeiro: CBJE/BrLetras, 2009. http://www.camarabrasileira.com/poemasdedicados2009.htm

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Sobre a brevidade da vida


não temos domínio do tempo e da vida
não conhecemos o segundo que passa
não conhecemos a dor que transpassa
em angústia, o dia porvir de cada vida

não conhecemos a dor da hora e da vida
do homem boêmio que morre louco
em angústia, por não muito pouco
perder-se em si o gosto pela vida

passa o tempo num dia de uma vida
passa-se a hora no sentimento perdido
da dor do não, dispensado ao mendigo
da dor da morte a orientar a vida

Canoas - RS, 04 de Setembro de 2009

sábado, 29 de agosto de 2009

Sob o céu azul da Cidade Alegre


quisera eu não mais ver
o cotidiano da vida
sobre o qual reina confuso
o clamor do mendigo
a fugir dos améns da injustiça

esparramam-se ao chão as migalhas
dos pães, dos dias, da dor, do pretenso homem
sob o céu azul da Cidade Alegre
que transforma a exploração
em subversiva trama:
liberdade em lucro
lucro em fel
vida em lixo
lixo em céu

grita aos meus olhos
a dor da vida
no choro inocente da criança
a implorar o pão
da fome

Porto Alegre-RS, 12 de junho de 2007 (29/08/09)

sábado, 22 de agosto de 2009

Epitáfio

aplaudirei os versos
declamados à tumba
do poeta sem nome
do poeta sem cor
do poeta sem poesia
do poeta que não foi poeta
ao gosto daqueles que não entendem
que viver infinitamente
é não sucumbir à finitude da vida


José Heber de Souza Aguiar
São Carlos – SP em 13/02/2008

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Posmaturo

do que não mais nascia
surgiu o feto errante
esse meu verso perambulante
vomitado dum desejo que ardia

cedo ou tarde ele viria
assim que vem já se apresenta
ainda que frio logo esquenta
essa natureza poética vadia

e mesmo negando a verdade que queria
(essa coisa louca eterna trama
que em meu corpo se perde e se emana
alma em luto que os meus pecados contraia)

não poderá dominar a vontade perambulante
do caminhar solito de meu verso errante

Canoas - RS, 09/03/2009

domingo, 7 de junho de 2009

Tenho medo



tenho medo
do medo de mim
fujo do sonho
do sonho que, enfim
não nasce comigo
antes, e assim
perde-se no nada
um nada ruim

resta-me agora
do sonho de mim
fazer-se-me outro
outro, enfim
que me emane sem medo
talvez só assim
não reine confuso
o desejo ruim

que vive, aqui, preso
dentro de mim

José Heber de Souza Aguiar
São Carlos – SP em 09/03/2008

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Surreal

sonho por sonho, real por real
o amor sempre bate à porta
e bem ou mal, vai e volta
torto, morto, mas ancorado ao porto
de vermelho ou verde ou sempre mal
o amor é o bíblico pai pródigo
indeciso como a arte de Van Gogh
surreal

Canoas - RS, 24/04/2009

sábado, 25 de abril de 2009

Se

se ser é ter
não sou

Belém – PA
Abril de 2004

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Eterna lida

tenho a alma
assentada
calma
nesse meu pobre peito

tenho um grande feito
assombrado
ensimesmado
nessa, sem volta, ida

tenho a lida
calejada
amargurada
por um pesadelo em meu sono

tenho um sonho:
ter na alma
a calma
enquanto nessa eterna lida...
chamada vida

São Carlos - SP
05/05/2008

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Khothbiro

a morte passa, e às vidas sem destino se entrelaça e mata
desfaz-se em ódio frente à inocentes almas, almas frágeis
corpos inocentes, gentes crentes no amanhã melhor que não conhecem

e o sangue escorre da pele negra e banhada em pólvora queimada
a alma escapa ao que resta de humano daquele destroçado corpo
a voz desesperada clama em canto, o socorro que não é ouvido
corre sem rumo o desejo de viver, corre sem sentido e sem direção
a guerra mata o sonho humano de vida, a guerra mata qualquer sonho
a guerra destrói a direção ao destruir o sentido do caminho

a guerra é impotente porque a destruição não pode destruir

sexta-feira, 27 de março de 2009

O Homem

o homem, esse covarde homem
bastardo da desordem e do descontentamento
filho das glórias do tormento
realidade que me tanto consome

pôs-se sobre minha alma, o ser
o bravio corpo que não conhece a razão
aquele homem-bicho sem noção
que usa da desonestidade pra viver

eu, como homem de coisas ralas
da sensibilidade de todo o ser
que não sou acostumado a viver
com a ignorância dessas toscas falas

pus-me homem sensível a observar
o que a dureza daquele pobre coração
tinha como grande e verdadeira razão
ao querer tanto me fazer calar

a desgraça da alma é a dor do homem
que mesmo dócil animal, se ferido
põe-se a esbravejar peito aguerrido
frente ao desespero e dor que lhe consome



eis que aquele duro humano de papel
não mais era que uma doce ferida
o gole bravo da tão forte bebida
que deixa-o sem razão, se imbuído em fel

todo grande homem é um pequeno ser
o engenho frágil de um Deus tão forte
que permite à sua criação conhecer a morte
sem que encontre a razão de viver

somos fadados a viver, e sofrer é o que resta
àqueles que não conhecem o clarão
e dispensam o doce hino em canção
que esvai-se da alma por uma fresta

grande e bendito seja todo o homem
que põe-se alma sempre amena
a fazer grande coisas tão pequenas
maiores que o medo da morte que lhe consome

segunda-feira, 23 de março de 2009

Frustração


http://www.camarabrasileira.com/pca09-014.htm
Publicado na Antologia "Poesia de Corpo & Alma", Rio de Janeiro: CBJE/BrLetras, 2009. ISBN: 978-85-7810-496-2

na solidão de teu seio
a razão do teu insulto:
“afaste-se diabo, tonto, feio
besta morta, alma tosca, vulto”

na ilusão de teu sonho
o teu amor astuto:
“abraça-me amante, lambe-me o seio
anjo tenro, amor eterno onde exulto”

na comunhão com teu receio
(ao que lhe digo) o ódio mútuo:
“abranda-me a alma, partida ao meio
por seu pobre amor sem fruto”


São Carlos – SP
03/04/2008

terça-feira, 17 de março de 2009

Até que a Morte os Separe

(até que a morte do amor os separe)


no altar a jura eterna
a sempiterna jura de um amor

somente a morte é o que os poderá separar

a promessa é feita à alma
da mulher e do homem
a marca há de não se desfazer
ainda que acabe o amor

a jura não promete a companhia eterna
promete a eterna companhia do amor
e só

se amor não mais há
corpos não mais se atrairão
e tristeza é só o que se poderá ver

sofre o corpo preso a outro corpo
esses que desfeitos um do outro
permitem o vôo livre do amor saído da jaula do domador
que se também livre está e ponto:
a jura não se mais fará até que a morte do corpo se faça
mas até que o amor dito eterno se desfaça

sábado, 10 de maio de 2008

Pego-me posto, de repente


pego-me posto, de repente
nesta tão antiga e velha jaula
onde esta minha alma
vive tão presa, assim

sofro encolhido nesta masmorra
minha vida fora lançada à sorte
põe-se mais perto do outono minha morte
e nenhuma fruta vermelha aportou em mim

ah, viver aqui e não viver aí
onde meu passo é raso e não, nunca
(vive) o ser que mesmo sem saber não se pergunta
se é um anjo antigo, um deus morto, um querubim

à toa chuto meu chão, meu pisar, meu fel
mas nem eu me encontro quando me procuro;
sou aquela vespa posta atrás do verde muro
que impede que eu veja um triste fim?

sábado, 3 de maio de 2008

Criação

“E Deus disse” (Gn. 1, 3. 9. 14. 20. 24. 26)

fecho à boca
a palavra:
trituro as sílabas
mastigo as consoantes
engulo as vogais
e, não podendo mais
gesto um poema
pelo útero divino:
a mesma boca

Publicado em Canoas: Tróis Editor. Cadernos Canoenses. Suplemento 201, ano 16, Setembro de 2009, p.05

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Triste fim, as grandes partidas

triste fim, as grandes partidas
corroem-me a alma, tudo em mim
as dores, lágrimas paridas
fogem-me de meu amor ruim

amo-me tanto, e os sonhos
resquícios de minha infância
sufocam-me nos escombros
de minha fiel intemperança

deixo-me nos pontos, as vírgulas
separam o que fui do que serei;
as idéias do que sou são ridículas:
idéias de ser o que só eu sei

há no tempo úmido o gesto
a forma singular do meu mundo;
transmuto-me num incesto:
não sou mais o de há um segundo

terça-feira, 29 de abril de 2008

Salmodia

“Javé o guarda e o mantém vivo para que ele seja feliz na terra” (Sl. 41,3)

medito sem parar, horas a fio
o gesto doce, mas triste e calmo
escondido no recitar do salmo
que enche de lágrimas meu rio

e o rio de lágrimas do salmista
reflete sua mais sincera dor
por não poder ter seu amor
na terra de onde tanto dista

a terra sagrada dada por Deus
é a terra donde corre leite e mel
mas na sua dor corre apenas fel
por não poder estar perto dos seus



confundem-se meu rio com o do poeta
que pôs em cada versículo a saudade
sentida tanto desde a mocidade
vivida longe de sua amada terra

e o rio de lágrimas deste triste ser
que sou, longe de meus amados
põe-me a expressar gestos fadados
quase como sem poder viver

mas, mesmo triste e magoado vivo
e encontro nos clamores do salmista
a felicidade que ainda se testifica
ao encontrar sempre Deus consigo

domingo, 27 de abril de 2008

Pensamento em verso

penso como quem não quer pensar;
em meu quarto branco, secamente
estão meus pensamentos, grávidos e reticentes
transformados em versos pra se mostrar

minhas idéias são dignas de anotar?
pergunto-me ansioso, com o receio
de que o pobre verso que me veio
vá minha escrivaninha amarrotar

que amarrote esse percurso sem nexo
desse pobre que vomita bem ao meio
da folha alva, límpida, onde semeio
como quem ejacula ao “fazer” sexo

se forem dignos de anotar, quem vai dizer?
preocupo-me em semear e semear
na virgem página desejosa por experimentar
o melhor sexo que eu sei fazer

Publicado na Antologia Cidade. Belém: 2009, Vol. II.

Todos os sentimentos


tenho todos os sentimentos do mundo
guardados aqui nesse pobre peito
e quando sob a noite deito
retomo-os todos num só segundo

sinto tudo o que é possível sentir
de dor a alegria; de saudade a amor;
o que há de mais terrível sendo o temor
de ser capaz de tanto, antes de dormir?

e antes de dormir sou o maior dos homens
e sou o mais frágil também, me creiam
os meus sentimentos são fortes, mas receiam
serem esmagados por um mistério sem nome

e esse mistério tão aterrorizador, talvez
seja eu mesmo, dentro das tantas dúvidas que me tomam
formadas com todas as dores que se assomam
dando nesse pária dum jogo de xadrez

e do jogo de xadrez sou o mais frágil
escondo-me atrás dos bispos e do rei
fugindo do medo que só eu sei
por serem capazes de me revelar tão ágil

e o mais ágil dos ágeis sou eu
quando acordo; levanto-me e ponho-me a oferecer
o melhor de mim, o que só eu sei fazer
até descobrir onde minh´alma na noite se perdeu

e se se perdeu eu logo a encontro
por dentre meus nervos e pensamentos
e lá escondidinha num pó cinzento
retomo-a e vamos ao melhor do conto

e, assim, jogo os dias que inda me restam:
nas manhãs sou forte, único e tão amável
e nas noites sou tão perdido, duvidoso e frágil:
o homem de todos os sentimentos que se versam

quarta-feira, 19 de março de 2008

Síntese dos outonos


o presente
é o escombro
do passado

o futuro
é o passado
transladado

e a morte
a síntese
dos outonos

domingo, 9 de março de 2008

Pesadelo

tenho tudo
no nada
inspiro doce
frio
da madrugada

tenho tudo
da amada
transpiro a tosse
desvio
da nAMORada

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Roubei da vida


roubei da vida
as palavras belas
o gosto agridoce da loucura
o cheiro da margarida

levo com a morte
os poemas secretos
as palavras impudentes
e o meu amor sem sorte

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

O barulho


o barulho
do silêncio
incomoda
o passar sorrateiro
do segundo

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Mendigo

mendigo
vida
implorando às almas
nas avenidas

rejeito
morte
recusando um não
como sorte

Publicado nos Cadernos Literários da Pragmatha Nº 16
Porto Alegre-RS Junho de 2009!

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Ofício

tão fácil
quanto difícil
é a vida
engrenada na labuta
do ofício

Cadernos Literários da Editora Pragmatha.
Ano 01. Número 17, Porto Alegre-RS, Junho de 2009, p.40.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Cicatrizo o ponto


Poema publicado no:
"Livro de Ouro da Poesia Brasileira Contemporânea", Rio de Janeiro: CBJE/BrLETRAS, 2009, p.46, ISBN: 978-85-7810-430-6, http://www.camarabrasileira.com/ouro09-025.htm

Poema publicado também no: "Cadernos Canoenses", Canoas: Tróis Editor, junho de 2009, p.4.

cicatrizo o ponto
cuspindo na hora
tossindo no mundo:
pensando...

encerro a tristeza
acariciando a lágrima
beijando a dor:
amando...

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Entranhamento

Poema exposto na Biblioteca Comunitária da UFSCar,
durante o XI Encontro de Poetas de São Carlos-SP, 15 de Março de 2008, http://www2.ufscar.br/servicos/noticias.php?idNot=1657

sou homem pequeno
pequeno espaço
passo ameno
refaço
o ciclo eterno sem asas:
renasço

sou palavra-poema
poema nasço
nessa vida pequena
enlaço
a voz tenra que escorre e vai:
num tímido titubear de versos...


domingo, 3 de fevereiro de 2008

Ego

há os que falam do coração:
falam o que sabem
sabem saber

há os que falam da cabeça:
falam o que pensam
pensam que sabem
falar o saber

há, por fim, os que falam do ego
e no ego não há nada
que se possa pensar, falar e saber

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Vôo

perdi minhas asas
num vôo qualquer
no fundo branco
sob as palavras
que escrevi atento
como quem tudo quer
mas que nada tem
senão o contentamento
presenteado pelo verso
cuspido com gosto
suado com toda a vida
de meu ser na solidão imerso

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Caminhar

Caminhamos, sabendo vez e outra
onde queremos ir, e vamos.
Vez e outra sabemos dos cursos
percursos e percalços da estrada.
Estradeamos, arrastando-nos sobre pedras afiadas
e respiramos o pó sacudido por nossos próprios passos.
Passamos, e a estrada põe-se agarrada às pedras
(como uma mãe se agarra ao filho recém-nascido):
o caminho morre sufocado pelas crateras
do sol-chuva que não se intimida.
As marcas da estrada caminham conosco
agarradas em nossas pernas, braços, rostos
lacrimejando na pele ressequida
pelo sol impiedoso que nos abrasa, nos arrasa
até o fim do percurso
onde a experiência ímpar do caminhar
vale muito mais que o fruto passageiro
do obstáculo vencido.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Algum lugar ao longe

algum lugar ao longe
leva um pouquinho de mim
pedaço do eu que se esconde
além do tempo ruim

vou às alturas depois de descoberta
a distância entre o que passa e o que fica
nesse meu ser que cedo ou tarde desperta
gota de alma que me explica

tão alto vôo é o que faço
que o medo do infinito não reluta
no giro eterno onde renasço
porção de loucura que me transmuta




Selecionado no Concurso:
Poemas no ônibus 16ª Edição e no trem
4ª Edição, Porto Alegre-RS
, SMC/RJH, 2007/2008, p.34.
Em circulação pelos ônibus e trens de Porto Alegre em 2008/2009.

domingo, 21 de outubro de 2007

Irmã Morte

(lembrando a pessoalidade de Florbela Espanca)


sinto tanto tua ausência, quem dera um dia
poder gritar mais alto que o grito forte
devolver pra ti o que é teu, a agonia
que te quebrastes a cabeça, e te fizeste morte

é a própria morte minha irmã
carrego-a comigo, e nossas responsabilidades;
é o meu destino, cada manhã
dessa vida dura de castidade

ah, que saudades de brincar contigo
é o choro de tua morte o meu amigo
a acompanhar-me em minhas jornadas

a intensidade da dor de teu umbigo
liga-te irmã morte, comigo:
havemos de caminhar almas caladas

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Éschaton

emana sete dias de meu peito;
são sete loucuras
sete ruínas
sete desgraças
sete injúrias
sete perguntas
sete horas
sete inquietações
sete silêncios
sete gemidos
sete clamores
sete arrependimentos
sete minutos
sete lembranças
sete saudades
sete suspiros
sete preces
sete perdões
sete lágrimas
sete gritos
sete segundos
sete palmos de terra...
sou defunto

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Viagem

viajamos juntos à eternidade
de nosso olhar;
perdi-me em vil serenidade:
desejo louco
de te mais que amar

teu corpo magro e alto
- mais que meu sonho -
escapava de meu desejo incauto
nos segundos sem fim
daquele tempo enfadonho

a água verde da laguna
prateada
derramava-se em agonia, sem alguma
racionalidade que nos fizesse
amar sem nada

tua resistência em não me querer
fazer companhia
fadava-me ao te ler
e eu, sem querer que nada dissesses
nada mo disse, apenas mo lia

lias-me como quem nada lia;
como quem nada amasse.
Era eu o teu pedaço róseo de agonia
derramado às areias de Laguna
à procura de respostas sem que nada mo perguntasse

em tamanho desterro, chegamos a nosso destino...
Eu, ainda, mais que proponho
deixar-me num papel, um louco menino
que no resvalar do ônibus, na estrada
descobre o fim de tudo... Era um sonho

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Expectativas

do jardim do Éden
quero as rosas
para estraçalhar-lhes as pétalas
e oferecer o sumo
aos deuses

dos deuses
quero o poder
de perpetuar-me nos inconscientes humanos
sem ser
o que a oração reza

da reza,
quero a sede dos devotos
para remover do coração
o ceticismo
que me consola

para meu consolo
quero dias
até descobrir se acabará o mundo
nas romarias
ou em igrejas esfumaçadas

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Canastra

corpos
quatro deles
perplexos
entreolham-se.
Esquecendo-se do mundo
desaparecem na cartada
e no olhar desconfiado
do mais experiente.
Já não recordam do trabalho
da vida dura
dos problemas
dos meninos
da igreja;
perdem-se nas lembranças
da infância adolescente
dos jogos cúmplices
dos roubos e dos olhares
da vitória suada
seguida de piscadas sorrateiras

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Tentações

trago na ideologia corroída pelo tempo
o desejo de saciedade da sociedade
tomada de mediocridade
e burrice

trago nos traços de velhice
a alegria - certeza do acerto -
e a frustração
mais forte que o apreço
pela verdade

trago na humana fragilidade
a ambição, desejo de ser grande:
sou tão ínfimo
que me corromper parece valer a pena....

pobre alma pequena

Soneto da dor



Publicado no Livro "Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos", Rio de Janeiro:
CBJE, 2007, 39º Volume, p.42, ISBN: 978-85-60489-27-5

oh Dor, face adiada da alegria
Hermes mensageiro da morte
caístes sempre no coração que não queria
a separação eterna, a solidão tão forte

vens tão rápida feita vulto
pondo-se a alimentar sua fome profana
presenteando, onde pisas, com o luto
alimentando-se da tristeza humana

escorregam da velhice dos rostos
tua filhas paridas, tua fertilidade
como lágrimas a reinar em toda idade

oh terrível dor, ris-se frente aos mortos;
o ser humano por tanto amar, não te ama
antes, te quer fumaça, passado, morta chama

sábado, 29 de setembro de 2007

Março


mais um março
mais um maço
desses dias-a-dias
de dores nas juntas
e cansaço

passo
impunhando mais um passo
nas ruas das agonias
das loucuras injuriosas
e faço...

março em maço
gestando passos de cansaço:
ingenuamente passo

dias-a-dias de março em cansaço


Publicado no livro "Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos", Rio de Janeiro, CBJE, 2007, 36º Volume, p.46, ISBN: 978-85-60489-27-5

Soneto de Definição


eu sou aquele que sobre as manhãs levanta
e junta sob sua depressiva cama
o pedaço que dormiu procurando a quem o ama
encontrando-o tão frio que mesmo à morte espanta!

sou o que antes de dormir sonhou:
tudo era tão lindo, beleza, encanto...
mas de súbito se derrete em prantos
adormecido, com a morte se casou

aquele sou eu... vivo tão sem sorte
- sem saber se existe mesmo esse tal norte -
caminhando pela estrada do avesso

sou aquele peregrino do deserto
que sem saber existir um rumo certo
busca na estrada, o recomeço



Publicado no livro:
I Antologia Internacional de Poesias "Mares diversos, Mar de Versos",
Rio de Janeiro: Mar de idéias, 2007, p.53, ISBN: 978-85-61010-03-4

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Extremos

(Fujo dos extremos como o “diabo foge da cruz”)

sou puro
feito de matéria
rara
rosto celeste
cabeça de Deus
(o Ideal me sustenta)
pele de anjo

sou nulo
feito de matéria
vaga
rosto confuso
cabeça doída
(o sol me mata)
pele de bicho

sou sonho
feito de matéria
decente
rosto de gente
cabeça de homem
(como quem tem vida)
pele sadia

sábado, 15 de setembro de 2007

A capa falsa da mentira

ouvi muitas vezes:
mentira bem contada
e repetida com insistência
costuma tornar-se verdade.
Também ouvi:
ato errado
realizado sem testemunha
é legítimo:
quem poderá provar a leviandade?

os políticos mentem, creio (mais) agora
(ainda mais
se a verdade lhes custar
as tetas
de onde sugam
o leite
pago pelo suor
do cidadão honesto)

as teorias mentem, creio agora.
Tudo mente
até o ditado:
“a mentira tem pernas curtas”;
o pior de tudo
é que essa vadia
tem pernas longas
e corre muito
pondo-se escondida
sob os palanques
das próximas campanhas eleitorais
onde já não existe memória
e a “verdade” reina livre

estou convicto:
a retórica insistente
é mãe de toda mentira
descarada
(agradeço aos senadores brasileiros
a ajuda para que eu pudesse concluir isso)

a mentira tem pernas longas e corre
mas um dia haverá de cansar
e a verdade aparecerá
sobre as capas falsas
(estampadas na face dos cínicos)
que a mentira apelidou de honestidade

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Uruará

(Lembrando o aniversário desse cantinho do PARÁiso em 13/09/2007)

vou
rápido
para não deixar
rastro:

o berço
me chama

a dor
em mim
não cala

a saudade
inflama
a lembrança
da cidade
que me deu seio

e que meu peito ama

derramarei
flores
no cesto
de sua alma
onde perpetua
a voz que clama
o retorno
dos pródigos filhos
à terra que lhes ama

Publicado no Livro: Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos, Rio de Janeiro, CBJE, 2007, 40º Volume, p.34, ISBN: 978-85-60489-27-5.

Surpresa

estudo
a vida

cheirando
amor
no curso
dos dias

até esbarrar
em minha
sombra
enforcada a ódio

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Questão de Fé



gritam os sinos
ouço o desespero do badalo
a pressa dos anjos
a lentidão das horas

dispersa-se no tempo
a dúvida, teimosa agonia:
subir degraus, beijar Maria?
cuspir orações como escarro

as almas não animam a hora
nem os santos meu dia...
a reza cansa:
o eco insiste
a dúvida persiste
o santo espera
a vela morre
a chama apaga


Publicado no livro:
Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos, Rio de Janeiro, CBJE/BrLetras, 2007, 37º Volume, p.41, ISBN: 978-85-60489-27-5

Publicado também no livro: Panorama Literário Brasileiro 2007/2008: As melhores poesias de 2007. Rio de Janeiro, CBJE/BrLetras, p.147, ISBN: 978-85-7810-073-5

Piada pra Deus

subi os montes
pernas pequenas
passos miúdos
respiração amena
toquei o céu
pedi bênção a Deus
caí no mundo
jogado ao léu
perdi-me nos dias
a amar as horas
cantando salmos
nas romarias
voltei à estrada
escalei os montes
abri as nuvens
e contei piada pra Deus

Segundo

roda mundo
gira tudo
contra todos
os minutos
passageiros
do profundo:
peregrino
importuno
a entreter
a razão
num milésimo
de segundo

Prece

(lembrando a pessoalidade de Fernando Pessoa)

pus-me ajoelhado
curvado ao Sumo Bem,
- o Deus dos cristãos -
que atende os pedidos, calado
se alguém os têm

invoquei-lhe em prece:
ó Deus misericórdia
Deus-amor
Deus-compaixão
traz para perto de mim
o cálice (não o outro cálice)
pra que eu beba, e porre
sinta o fartio da solidão que me vem

Culto

submisso
ao tempo
ajoelhado
presto-lhe culto
embora resista
às Ave-Marias
oferecidas
aos dias vagos
que a razão
dispensa:
sou mais fiel
que a crença
em milagre
sem osso

Canto

canto
do mau
tempo
o pranto

grito
tão alto
quanto o eco
mais estridente
e afugentado
do canto
de minha alma:

espremido
no canto
do mundo
conto os dias

Contra toda solidão

a rosa escancarada grita!
assustada treme
geme o medo
freme
o pudor do pólen que a excita

bendita é a voz que chama
pondo-se a estontear a razão
absoluta por querer
derramar-se em paixão...
essa coisa louca, eterna trama

feliz é todo coração que ama
e que antes de amar
sabe saber...
esforçar-se por calar
a estupidez da solidão que no vago se derrama


Publicado no:
Livro de Ouro da Poesia Brasileira Contemporânea, Rio de Janeiro: CBJE/BrLetras, 2007, p.47, ISBN: 978-85-60489-27-5

sábado, 8 de setembro de 2007

Pedacinho de céu

Quanta saudade de teu riso
e da tua voz criança
chamando: “tio Bergue”!
Ah! Tê-la aqui a me fazer pequeno!
Voltar à infância me prestaria,
como sempre faço
quando contigo estou.

(Sem você) Os meus dias são tão longos,
mesmo em tão poucas horas...
É que a ânsia de estar contigo
(levá-la à pracinha de Uruará;
pô-la no mundo da fantasia;
fazê-la deslizar no escorregador de sonhos;
vê-la flutuar naquele balanço vermelho),
faz-me maior que minha paciência.

Queria estar perto de ti
meu pedacinho de céu de três anos
para ouvir a suavidade da inocência criança
fazendo-se voz pela tua boca.
A expressão máxima do mundo,
sem dor ou maldade, vejo em teus olhos,
mas sou eu que carrego
a dor da saudade que existe em mim.

Publicado no livro:
Poemas Dedicados,
CBJE, RJ, 2007

A Mor Te


A
Mor
Te
Amo
A mor te
Amo
Amo-te amor
E toma-me amor
Toma-me a morte
Amo
Amo-te
E toma
Amo-te
A mor te
Amo



Formato Original:
http://recantodasletras.uol.com.br/poesiasdeamor/208327

Publicado no livro:
I Antologia Internacional de Poesias "Mares diversos, Mar de Versos",
Rio de Janeiro: Mar de idéias, 2007, p.54, ISBN: 978-85-61010-03-4

Publicado em:
Caderno Literário nº 15, abril de 2009;
Tema "AMOR". Ed. Pragmatha, Porto Alegre - RS.

Complacência

preso e livre entre quatro portas
donde vem o vento frio angustido,
aonde vai meu espírito imbuído
pelas ruas brancas de gentes tortas

vai e caminha além-vida
tropeça nas dores de um choro rouco
dum homem mais que livre e louco
por quem a esperança mais garrida

o tempo em ser tempo... um caduco
no caminho à dor explícita do mendigo
é um espelho? mas parece comigo
sobrevivo na luta em disfarçar-me eunuco

esvai-se estúpido em relento, o ideal frio
a palavra vã do mais que louco espanto
é grito covarde, amando em acalanto...
aonde vai? Ao meu e teu olhar sombrio

Publicado nos:
Cadernos Canoenses
em Agosto de 2006 - CANOAS –RS

Anjo Antigo

eu era filho de inocência pura
como flor sensível à luz do sol que queima
mergulhei no desconhecido e tornei-me eu
em busca débil de tornar-me infinito

de grito em grito colhi flores
colhi-me em mim mesmo
embelezei o turvo do desconhecido
iluminei-me em certezas e desejos


bastei-me de ser o que não era...
minha quimera exaurida em dúvidas
anjo puro, guardião de verdades sãs

completei-me de buscas em quimeras
tais quais verdades crentes, lúcidas
em verdades cruas, elucidativas, pagãs

Publicado nos:
Cadernos Canoenses
em Agosto de 2006 - CANOAS –RS

Clamor

dá-me caminho, casa, existir
dá-me ser, compreender...
tua dureza humana
rígida

sobrevivo aqui
nula existência;
vagabundo me proclamas
vagamundo sou...
feito pobre, tão pequenininho
jogado ao mundo
sob o burburinho
dos xingões e ira de teu desprezo

ah, ter casa e não viver aí
sob os trapos de tua rejeição;
faz tanto frio
sobre a calçada:
relva de minha extinção

pedra sou
lixo em seu caminho;
nem cachorro me resta ser
(ah! ser um), vivo sozinho...
Sem desfrutar a ração que os teus cães comem

ah, ser gente, a ser nada...
homem duro, sem coração;
pisas-me os braços
e chutas-me a cabeça
mas dar-me as mãos e me levantar que é bom
não passa por tua inteligência humana negligenciada

Publicado no livro:
Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos,
CBJE, RJ, 38º Volume.

Inspiração

sentei-me sobre meu leito
e de súbito, abraçado ao violão
quedei-me a esperar as atordoadas tramas
o que chamo inspiração

não veio nem o azul, o claro, o verde
a letra, a raiva, a calmaria
não veio na nota, o susto, o horror
nem o sentimento que me abarcaria

nem a imagem veio, a beleza do rosto
a pele sensível que me abrazaria
o toque dos lábios, suave doce
da boca louca que me beijaria

o sentir eterno não veio
o gosto agridoce não apareceu
o poema, filhote caseiro
abortou-me e a poesia morreu

Menino Danado

a banhar na chuva vivia
meu corpo magro, leve, esguio
em tão eterno momento sagrado
que a meu tempo devotava o frio

menino magrinho de olhos pretos
pedaço de sonho, de querer-se assim
tiquinho de timidez, pouquinho de encanto
do que é infinito e se eterniza, enfim

menino traquino, pedaço danado
vacante no mundo do além
a machucar as mãos, cortar os dedos
a viver preso tão como ninguém

As Palavras

as palavras de tão cegas
fogem da ignorância
fugidias da lembrança
vão-se pra outras eras

donde retornam
tontas, a caberem nos ditados
nas expressões que se formam
dos sentimentos gerados

as palavras vão e voltam
como vão e voltam os seres
encontrando-se no verbo

as palavras se extraviam e morrem
mas ressuscitam, eternizando-se
na necessidade humana de comunicar

Porto Alegre - RS
22/08/2007

A Larapia

(contraponto à poesia A Pátria, de Olavo Bilac)

odeia com afinco e desgosto, a terra em que nasceste

pobre, não verás nenhum país como este!
olha que céu! que lar! que brios! e que moléstia!
a natureza aqui, perpetuamente em sesta
é um rio de lama, a escorrer dos garimpos

vê como vida havia no chão! vê que vida habitava nos ninhos
que se balançam no ar, entremeados de insetos!
vê que cruz, que pavor, que multidão de inquietos!
vê as extensões de matas, onde impera
a serra raivosa e a eterna sorte dela!

boa terra! Jamais negou a quem lhe esmigalha
o tanto de mata que some, o motor que estraçalha

quem sem pôr suor a inunda e a empobrece
vê pago seu esforço, e feliz, enriquece!

pobre! não terás pão nenhum aqui neste
grita, por grandeza, na terra onde empobreceste